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5.1
- materiais de construção
.....O
homem e sua ação depredatória já conseguiu banir definitivamente
uma inestimável quantidade de espécies animais e vegetais da Terra.
As conseqüências destes atos nocivos, não deixarem de agir sobre
as espécies de abelhas sem ferrão, fazendo com que muitas não
possam ser encontradas mais na natureza ou estejam em processo
avançado de extinção.
.....Apesar
da rápida devastação das paisagens naturais de nosso planeta,
ainda podemos localizar inúmeros locais onde as abelhas sem ferrão
constróem suas moradias. Seus ninhos naturais podem se desenvolver,
como no interior de ocos de árvores, cupinzeiros e formigueiros
abandonados, cavidades subterrâneas, postes, paredes, muros, caixas
de força, armários, pedreiras, caixas-isca, ou qualquer outro
local onde encontrem quesitos necessários para sua proteção e
desenvolvimento. Na construção e elaboração do espaço dos ninhos,
as abelhas lançam mão de diversos "materiais de construção". São
eles :
1) a cera
pura
2)
o cerume (mistura de cera + resina)
3)
a resina (comparada à própolis das abelhas melíferas)
4)
batume ou geoprópolis (resina + barro)
.....A
cera no seu estado puro, é produzida pelas glândulas cerígenas
que estão ativas na fase mais jovem da abelhas, fase na qual estas
realizam trabalhos de construção (arquitetas). Espécies, como
as Jataís e algumas Mirins, armazenam esta substâncias
no seu estado puro, em pequenos depósitos. Alguns autores também
denominam de cera o cerume, que será explicado a seguir, causando
alguma confusão a respeito.
.....O
cerume compõe-se da mistura da cera pura com a resina coletada
pelas campeiras. É utilizado por certas espécies na formação do
invólucro que cerca toda a área dos favos de cria, e do canudo
de entrada de espécies da tribo Trigonini [foto 12].
.....Semelhante
à própolis utilizada por Apis mellifera, a resina
também é produto da coleta de abelhas forrageadoras de feridas
e exudações de plantas resinosas. Serve para os mesmos fins de
vedação do ninho e defesa da colônia. Quando abrimos a tampa de
uma caixa racional de meliponíneos, percebemos que a mesma está
"lacrada" junto à caixa por uma camada de resina bem viscosa e
pegajosa. Em situações de invasão, as abelhas atacam seus inimigos
com pelotinhas de resina e também mumificam estes, quando estão
mortos e não podem ser retirados da colônia. Já pude observar,
formigas Camponotus, mortas e grudadas na entrada de colônias
de Jataí, impregnada de bolinhas de resina em seus corpos.
.....Pouco
ainda se sabe da composição química e efeitos terapêuticos da
resina dos meliponíneos, mas já é comprovado que esta substância
varia de acordo com a espécie em questão, o local do ninho, e
com a época do ano, uma vez que é o conjunto de vegetais visitados
para coleta desta resina que determinará os elementos químicos
que à compõe.
.....O
último material abordado é elaborado através da mistura da resina
com barro, e chama-se batume. Serve na construção da entrada
das espécies da tribo Meliponini e também na delimitação
do espaço interno do ninho.
5.2
- elementos de um ninho
.....Os
ninhos naturais das abelhas sem ferrão tem formato muito variado,
uma vez que são construídos de maneira a ajustarem-se perfeitamente
ao espaço escolhido para tal. Embora a arquitetura varie de acordo
com a necessidade, os elementos que os constituem apresentam-se
padronizados em quase todas as espécies de abelhas sem ferrão,
salvo exceções que serão comentadas. Siga os detalhes de cada
elemento, identificando-o junto a [figura 6]:
1) entrada
da colônia - as abelhas sem ferrão constróem seus orifícios de
entrada variando bastante quanto a sua forma, material de construção
e medidas. Conforme já mencionado, a entrada das espécies da tribo
Trigonini seguem o padrão de um canudo feito de cerume
[foto 13; entrada de 1-Scaptotrigona e 2-Jataí],
enquanto que as da tribo Meliponini arquitetam-na utilizando
o batume como material [foto 14; entrada de 1-Uruçu e 2-Jandaíra].
A entrada da maioria absoluta das colônia tem conexão direta com
a área de cria, através da qual a família desvia o excesso de
calor produzido principalmente pelas abelhas mais jovens através
da ventilação de suas asas. Não existe evidência de resfriamento
evaporativo por meio da água transportada até a colônia. Porém,
algumas famílias arquitetam uma entrada principal falsa, que leva
o invasor a uma câmara vazia, e outra real que conduz ao ninho
verdadeiro. Este tipo de entrada já foi descrito em Partamona
testacea e pode estar relacionado com a proteção do ninho,
induzindo o invasor a crer que o ninho está abandonado. Ao final
do dia, diversas espécies lacram a entrada de seus ninhos com
vistas à proteção contra inimigos noturnos.
2) área
de cria - é o ninho propriamente dito, onde são construídos
os favos de incubação dos ovos e desenvolvimento das larvas. Em
Apis mellifera, as operárias constróem seus favos orientados
na vertical, destinados tanto para o armazenamento de alimento
como para a postura da rainha e desenvolvimento das larvas. Os
favos de cria dos meliponíneos são normalmente dispostos horizontalmente
na forma de discos empilhados [foto 15]. Separando os vários
discos existem pequenos "pilares" que determinam a altura (o espaço
abelha) dentro da qual transita a rainha na tarefa da postura,
além de outras abelhas responsáveis pelo reparo e construção dos
favos ou células de cria. Como exceção à regra, existem algumas
espécies que apresentam favos em espiral, cria em formato de cachos
[foto 16 - favos em cacho de Hypotrigona sp.], e
uma espécie africana (Dactylurina staudingeri) que possui
favos verticais tal como ocorre em Apis mellifera.
3) invólucro
- trata-se de uma estrutura de aspecto folheado [foto 17],
responsável pela manutenção de uma temperatura adequada, propícia
ao desenvolvimento larval das futuras abelhas e zangões. Alguns
pesquisadores consideram o invólucro como uma adaptação arquitetural
que ajuda a reter o calor das abelhas imaturas e operárias entre
os favos, também amortecendo a flutuação de temperatura na colônia,
mantendo-a entre valores de 34ºC e 36ºC. Em uma pesquisa, o pesquisador
David Roubik constatou uma superioridade de 2ºC a 3ºC na
temperatura da área de cria em relação ao espaço na colônia fora
do invólucro. Entretanto, sabe-se que as abelhas sem ferrão possuem
menor habilidade em regular a temperatura no ninho, comparada
à Apis mellifera. Tal deficiência, principalmente em baixas
temperaturas, explica porque os meliponíneos se espalharam restritos
à faixa tropical e subtropical do planeta (mais detalhes biogeográficos
no capítulo 8). Em determinadas situações, é normal encontrar
colônias que não se utilizam desta estrutura de proteção, como
em locais onde o ninho apresenta bom isolamento térmico em relação
ao ambiente externo. Já tive a oportunidade de capturar uma colônia
de Mirim (Plebeia sp.), estabelecida em uma cavidade
dentro de uma parede lateral de uma casa. Não havia na ocasião
a presença de invólucro. Meses depois de estar acondicionada em
uma caixa racional, a colônia construiu uma camada de invólucro
bastante espessa, fato que levou-me à conclusão de que as abelhas
não encontraram na caixa racional a mesma situação de conforto
térmico semelhante àquela vivida quando do abrigo na grossa parede.
4) potes
de alimento - No estoque de provimentos, os meliponíneos armazenam
seus alimentos (mel e pólen) em potes geralmente ovalados, construídos
com cerume [foto 18 - potes de cerume de Manduri do Mato
Grosso (Melipona favosa)]. Existem os potes que guardam
somente mel, mais escuros, e os que armazenam pólen. Ficam localizados
ao redor ou em cima dos favos de cria, externa ou internamente
à camada de invólucro, dependendo do espaço disponível na colônia.
Com relação ao pólen, dentro destes potes, as próprias abelhas
inoculam certos tipos de bactérias responsáveis pela fermentação
e transformação da estrutura química deste alimento, tornando
a absorção e aproveitamento dos nutrientes mais eficiente. Estas
bactérias, do gênero Bacillus, também produzem substâncias antibióticas
que ajudam na durabilidade do pólen estocado. Por esta razão,
devemos acondicionar pólen de meliponíneos em refrigeração moderada,
não expondo-o ao congelamento que pode ser fatal para estas bactérias
benéficas.
5) delimitações
do ninho - são as paredes, teto e piso que delimitam e protegem
o espaço interno de uma colônia. São construídas com batume, sendo
que algumas espécies ainda combinam à resina e ao barro, materiais
diversos como restos de casulo, lascas de madeira, insetos mortos,
restos de carcaça animal e excrementos de vertebrados. Estes últimos
dois materiais, são utilizados por inúmeras espécies, com destaque
para Arapuá, Mandaçaia e Uruçu. O mel destes
e de outros meliponíneos de hábitos anti-higiênicos, por vezes
pode apresentar risco de contaminação e devem passar por processos
que visem garantir a qualidade do produto final. Diversos autores
têm destacado a Jataí, como espécie das mais higiênicas,
superando mesmo as Apis mellifera. Alguns ninhos, sujeitos
a inundações, possuem em seu piso orifícios ou galerias de drenagem
da água, elemento que pode ser constatado principalmente em ninhos
subterrâneos [foto 19 ; 1-batume; 2-favos; 3-potes].
6o) depósito
de detritos - está presente na parte inferior do ninho
sendo de caráter provisório, ou seja, sofre constante renovação
uma vez que as operárias de função faxineira retiram o lixo produzido
pela colônia repetidamente durante o dia [foto 10].
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