curso - criação racional de abelhas sem ferrão (2002)

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capítulo 5 - estrutura dos ninhos :
[sem figuras]

5.1 - materiais de construção

.....O homem e sua ação depredatória já conseguiu banir definitivamente uma inestimável quantidade de espécies animais e vegetais da Terra. As conseqüências destes atos nocivos, não deixarem de agir sobre as espécies de abelhas sem ferrão, fazendo com que muitas não possam ser encontradas mais na natureza ou estejam em processo avançado de extinção.

.....Apesar da rápida devastação das paisagens naturais de nosso planeta, ainda podemos localizar inúmeros locais onde as abelhas sem ferrão constróem suas moradias. Seus ninhos naturais podem se desenvolver, como no interior de ocos de árvores, cupinzeiros e formigueiros abandonados, cavidades subterrâneas, postes, paredes, muros, caixas de força, armários, pedreiras, caixas-isca, ou qualquer outro local onde encontrem quesitos necessários para sua proteção e desenvolvimento. Na construção e elaboração do espaço dos ninhos, as abelhas lançam mão de diversos "materiais de construção". São eles :

1) a cera pura
2) o cerume (mistura de cera + resina)
3) a resina (comparada à própolis das abelhas melíferas)
4) batume ou geoprópolis (resina + barro)

.....A cera no seu estado puro, é produzida pelas glândulas cerígenas que estão ativas na fase mais jovem da abelhas, fase na qual estas realizam trabalhos de construção (arquitetas). Espécies, como as Jataís e algumas Mirins, armazenam esta substâncias no seu estado puro, em pequenos depósitos. Alguns autores também denominam de cera o cerume, que será explicado a seguir, causando alguma confusão a respeito.

.....O cerume compõe-se da mistura da cera pura com a resina coletada pelas campeiras. É utilizado por certas espécies na formação do invólucro que cerca toda a área dos favos de cria, e do canudo de entrada de espécies da tribo Trigonini [foto 12].

.....Semelhante à própolis utilizada por Apis mellifera, a resina também é produto da coleta de abelhas forrageadoras de feridas e exudações de plantas resinosas. Serve para os mesmos fins de vedação do ninho e defesa da colônia. Quando abrimos a tampa de uma caixa racional de meliponíneos, percebemos que a mesma está "lacrada" junto à caixa por uma camada de resina bem viscosa e pegajosa. Em situações de invasão, as abelhas atacam seus inimigos com pelotinhas de resina e também mumificam estes, quando estão mortos e não podem ser retirados da colônia. Já pude observar, formigas Camponotus, mortas e grudadas na entrada de colônias de Jataí, impregnada de bolinhas de resina em seus corpos.

.....Pouco ainda se sabe da composição química e efeitos terapêuticos da resina dos meliponíneos, mas já é comprovado que esta substância varia de acordo com a espécie em questão, o local do ninho, e com a época do ano, uma vez que é o conjunto de vegetais visitados para coleta desta resina que determinará os elementos químicos que à compõe.

.....O último material abordado é elaborado através da mistura da resina com barro, e chama-se batume. Serve na construção da entrada das espécies da tribo Meliponini e também na delimitação do espaço interno do ninho.

5.2 - elementos de um ninho

.....Os ninhos naturais das abelhas sem ferrão tem formato muito variado, uma vez que são construídos de maneira a ajustarem-se perfeitamente ao espaço escolhido para tal. Embora a arquitetura varie de acordo com a necessidade, os elementos que os constituem apresentam-se padronizados em quase todas as espécies de abelhas sem ferrão, salvo exceções que serão comentadas. Siga os detalhes de cada elemento, identificando-o junto a [figura 6]:

1) entrada da colônia - as abelhas sem ferrão constróem seus orifícios de entrada variando bastante quanto a sua forma, material de construção e medidas. Conforme já mencionado, a entrada das espécies da tribo Trigonini seguem o padrão de um canudo feito de cerume [foto 13; entrada de 1-Scaptotrigona e 2-Jataí], enquanto que as da tribo Meliponini arquitetam-na utilizando o batume como material [foto 14; entrada de 1-Uruçu e 2-Jandaíra]. A entrada da maioria absoluta das colônia tem conexão direta com a área de cria, através da qual a família desvia o excesso de calor produzido principalmente pelas abelhas mais jovens através da ventilação de suas asas. Não existe evidência de resfriamento evaporativo por meio da água transportada até a colônia. Porém, algumas famílias arquitetam uma entrada principal falsa, que leva o invasor a uma câmara vazia, e outra real que conduz ao ninho verdadeiro. Este tipo de entrada já foi descrito em Partamona testacea e pode estar relacionado com a proteção do ninho, induzindo o invasor a crer que o ninho está abandonado. Ao final do dia, diversas espécies lacram a entrada de seus ninhos com vistas à proteção contra inimigos noturnos.

2) área de cria - é o ninho propriamente dito, onde são construídos os favos de incubação dos ovos e desenvolvimento das larvas. Em Apis mellifera, as operárias constróem seus favos orientados na vertical, destinados tanto para o armazenamento de alimento como para a postura da rainha e desenvolvimento das larvas. Os favos de cria dos meliponíneos são normalmente dispostos horizontalmente na forma de discos empilhados [foto 15]. Separando os vários discos existem pequenos "pilares" que determinam a altura (o espaço abelha) dentro da qual transita a rainha na tarefa da postura, além de outras abelhas responsáveis pelo reparo e construção dos favos ou células de cria. Como exceção à regra, existem algumas espécies que apresentam favos em espiral, cria em formato de cachos [foto 16 - favos em cacho de Hypotrigona sp.], e uma espécie africana (Dactylurina staudingeri) que possui favos verticais tal como ocorre em Apis mellifera.

3) invólucro - trata-se de uma estrutura de aspecto folheado [foto 17], responsável pela manutenção de uma temperatura adequada, propícia ao desenvolvimento larval das futuras abelhas e zangões. Alguns pesquisadores consideram o invólucro como uma adaptação arquitetural que ajuda a reter o calor das abelhas imaturas e operárias entre os favos, também amortecendo a flutuação de temperatura na colônia, mantendo-a entre valores de 34ºC e 36ºC. Em uma pesquisa, o pesquisador David Roubik constatou uma superioridade de 2ºC a 3ºC na temperatura da área de cria em relação ao espaço na colônia fora do invólucro. Entretanto, sabe-se que as abelhas sem ferrão possuem menor habilidade em regular a temperatura no ninho, comparada à Apis mellifera. Tal deficiência, principalmente em baixas temperaturas, explica porque os meliponíneos se espalharam restritos à faixa tropical e subtropical do planeta (mais detalhes biogeográficos no capítulo 8). Em determinadas situações, é normal encontrar colônias que não se utilizam desta estrutura de proteção, como em locais onde o ninho apresenta bom isolamento térmico em relação ao ambiente externo. Já tive a oportunidade de capturar uma colônia de Mirim (Plebeia sp.), estabelecida em uma cavidade dentro de uma parede lateral de uma casa. Não havia na ocasião a presença de invólucro. Meses depois de estar acondicionada em uma caixa racional, a colônia construiu uma camada de invólucro bastante espessa, fato que levou-me à conclusão de que as abelhas não encontraram na caixa racional a mesma situação de conforto térmico semelhante àquela vivida quando do abrigo na grossa parede.

4) potes de alimento - No estoque de provimentos, os meliponíneos armazenam seus alimentos (mel e pólen) em potes geralmente ovalados, construídos com cerume [foto 18 - potes de cerume de Manduri do Mato Grosso (Melipona favosa)]. Existem os potes que guardam somente mel, mais escuros, e os que armazenam pólen. Ficam localizados ao redor ou em cima dos favos de cria, externa ou internamente à camada de invólucro, dependendo do espaço disponível na colônia. Com relação ao pólen, dentro destes potes, as próprias abelhas inoculam certos tipos de bactérias responsáveis pela fermentação e transformação da estrutura química deste alimento, tornando a absorção e aproveitamento dos nutrientes mais eficiente. Estas bactérias, do gênero Bacillus, também produzem substâncias antibióticas que ajudam na durabilidade do pólen estocado. Por esta razão, devemos acondicionar pólen de meliponíneos em refrigeração moderada, não expondo-o ao congelamento que pode ser fatal para estas bactérias benéficas.

5) delimitações do ninho - são as paredes, teto e piso que delimitam e protegem o espaço interno de uma colônia. São construídas com batume, sendo que algumas espécies ainda combinam à resina e ao barro, materiais diversos como restos de casulo, lascas de madeira, insetos mortos, restos de carcaça animal e excrementos de vertebrados. Estes últimos dois materiais, são utilizados por inúmeras espécies, com destaque para Arapuá, Mandaçaia e Uruçu. O mel destes e de outros meliponíneos de hábitos anti-higiênicos, por vezes pode apresentar risco de contaminação e devem passar por processos que visem garantir a qualidade do produto final. Diversos autores têm destacado a Jataí, como espécie das mais higiênicas, superando mesmo as Apis mellifera. Alguns ninhos, sujeitos a inundações, possuem em seu piso orifícios ou galerias de drenagem da água, elemento que pode ser constatado principalmente em ninhos subterrâneos [foto 19 ; 1-batume; 2-favos; 3-potes].

6o) depósito de detritos - está presente na parte inferior do ninho sendo de caráter provisório, ou seja, sofre constante renovação uma vez que as operárias de função faxineira retiram o lixo produzido pela colônia repetidamente durante o dia [foto 10].

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